sexta-feira, 1 de outubro de 2021

LINHA DODGE DART/CHARGER NO BRASIL - Parte 1 de 2

LINHA DODGE DART/CHARGER NO BRASIL - Parte 1 de 2

Em 15 de agosto de 1967 a Chrysler adquiriu o Controle acionário da Simca em nível mundial. No Brasil, a montadora francesa estava em dificuldades mas havia preparado para 1967 uma releitura do Chambord – o Esplanada e seu irmão mais despojado, o Regente. Eram modelos maquiados do velho sedan francês projetado na década de 1950. Somente após modernizar os carros, a Chrysler neles aplicou o seu logo.

Apesar de relativo sucesso do Esplanada, do Regente e do esportivo GTX, em 1969 sua produção foi paralisada e o mercado nacional recebeu em outubro daquele ano um produto bem mais moderno, o elegante sedan Dart (que em português significa “dardo”) – era praticamente o mesmo carro vendido nos Estados Unidos como modelo 1969. 

 

Se nos EUA o Dart era classificado como “compacto e econômico” e voltado para a classe média, aqui ele logo adquiriu o status de “carro grande e de luxo”, disputando mercado com o Ford Galaxie, lançado em 1967. Com 4,96 m de comprimento e 1,5 tonelada de peso, de certa forma ele também iria concorrer com o recém-lançado Chevrolet Opala, que oferecia uma versão com motor 6 cilindros. E ainda iria disputar clientes do tradicional e luxuoso Itamaraty, já produzido pela Ford (esta adquiriu a Willys Overland do Brasil em 1967).

Inicialmente era oferecida apenas a versão Sedan 4 portas, em versão única de acabamento, com banco dianteiro inteiriço com encosto bem vertical, câmbio de 3 marchas na coluna, painel completo com manômetro de óleo e voltímetro. O acabamento geral era muito simples, a suspensão dura e os freios insuficientes (a tambor nas 4 rodas). Os pneus diagonais de série só garantiam segurança até a velocidade de 150 Km/h (só os radiais Pirelli CF67 Cinturato, opcionais, permitiam rodar a velocidades superiores a 150 Km/h, com segurança). A vedação contra pó e água era deficiente e o espaço interno não era tão amplo quanto as dimensões externas e o generoso entre-eixos de 2,82 m sugeriam, e seu porta-malas raso também não acomodava muita bagagem. Os Dodge Dart de 1969 modelo 1970 realmente tinham acabamento inferior ao dos modelos fabricados após 1970, tanto que não possuíam comando interno para abertura do capô (este comando era uma trava após a grade do motor). A tampa do bocal de combustível não tinha chave e o furto de gasolina já era uma realidade nacional. Mas esta teria sido uma estratégia da Chrysler para assegurar o menor preço possível para o Dart no lançamento.

O enorme motor 318 V8 de 5,2 litros (198 cv) – o mesmo utilizado nos caminhões da marca – proporcionava resistência e potência de sobra, à custa de um consumo elevado como o do rival Ford Galaxie, que também usava motor V8 de caminhão. Ter o motor mais possante entre todos os carros nacionais fabricados até então tinha suas virtudes: ele chegava aos 180 Km/h de velocidade máxima, acelerando de 0 a 100 km/h em apenas 12 segundos. O grande torque (41,4 kgm a 2400 rpm) permitia ultrapassagens seguras. Nas subidas, comportava-se como se estivesse numa estrada plana, mas o consumo era muito alto (entre 4 e 5 km/litro) e a autonomia eram bem baixa porque no tanque cabiam apenas 62 litros. A suspensão firme permitia fazer curvas em velocidades elevadas sem inclinar muito a carroceria e o comportamento melhorava com o estabilizador dianteiro, opcional. A direção, embora não tivesse assistência hidráulica, não era muito pesada graças ao artifício de ser bem desmultiplicada.

Um detalhe que sempre diferenciou o Dart dos demais carros vendidos no mercado nacional era o vidro traseiro côncavo (em curva para fora) – solução não convencional e muito estética. 

O Dart era disponível nas cores Amarelo Carajá, Azul Profundo, Azul Abaeté, Verde Imperial, Branco Polar, Vermelho Chavante e Preto Formal.

Os bancos e forrações das portas podiam ser nas cores verde, azul ou preto, dependendo da cor da carroceria.

O Dart foi eleito o “CARRO DO ANO” pela revista Auto Esporte em janeiro de 1970.

O "careta" Dart sedan deu origem a uma versão Coupé em outubro de 1970 (modelo 1971), com aspecto mais esportivo por não ter as colunas laterais (os vidros laterais traseiros arriavam totalmente). 

Ele oferecia direção assistida como opcional e melhor acabamento, o que ajudou a alavancar as vendas do modelo pois o brasileiro já apreciava carros com 2 portas, mesmo que fossem grandes e voltados ao segmento de luxo.

Em 1971 a linha cresceu com o lançamento de versões esportivas como a Charger LS e a Charger R/T

Os Charger LS (mais simples) e R/T (mais sofisticado) tinham o mesmo motor V8, só que ainda mais potente (215 cv) e taxa de compressão mais elevada que exigia gasolina azul, colunas traseiras esticadas que avançavam sobre os para-lamas traseiros e falsas entradas de ar no capô do motor (“flautas”) que reforçavam o apelo esportivo.

O Charger RT, abaixo, distinguia-se do modelo cupê convencional pela pintura vistosa arrematada com faixas pretas, grade diferente que escondia os faróis, acabamento interno com console entre os bancos individuais alojando a alavanca da caixa de câmbio de 4 marchas, conta-giros no painel, rodas esportivas sem calotas, colunas laterais traseiras mais largas repuxadas sobre os pára-lamas e teto revestido de vinil. 

 

Além disso, o RT demonstrou ser o carro de série mais veloz fabricado no Brasil – chegava aos 190 km/h. 

O Charger caracterizava-se mais como um modelo cupê de luxo. Com o mesmo painel do Dart, oferecia opcionalmente banco individuais separados por um console, transmissão automática, ar condicionado e direção hidráulica.

O R/T tornou-se um ícone ao estrelar o filme “Roberto Carlos a 300 Km/h” e o cantor ganhou um modelo.

Numa inteligente jogada de marketing, foi oferecida a simplória - mas simpática - versão esportiva popular denominada SE (lançada em maio de 1972), 40% mais barata que o R/T e dirigida aos "jovens descolados". 


O novo SE nada mais era que um Dart Coupé com bancos e forrações quadriculadas, capô pintado em preto fosco - cor presente em outras partes da carroceria - além de bancos dianteiros individuais, câmbio no assoalho e outros detalhes esportivos.

A linha 1972 trouxe novo painel, que podia ser revestido com adesivo padrão jacarandá (somente para os Chargers e Dart Sedan) e instrumentos redesenhados com fundo branco e números pretos. O amperímetro e o manômetro de óleo foram substituídos por simplórias luzes espias e uma só alavanca passou a reunir o controle do ventilador (de 2 velocidades) e o regulador de distribuição do ar. Também foram adotadas novas padronagens nas forrações. Os bancos do R/T foram redesenhados e o volante ganhou revestimento em couro (antes era em madeira). A grade dianteira do Dart ganhou um friso horizontal cromado mais largo e os piscas passaram a ser na cor laranja. As lanternas traseiras foram redesenhadas (antes eram divididas horizontalmente ao meio) e passaram a ser divididas horizontalmente em 3 partes, com a luz de ré no centro. Foi adotada uma moldura de plástico arrematada com um friso metálico.

Para capturar clientes do Galaxie e suas versões mais luxuosas LTD/Landau, a Chrysler lançou as novas versões Gran Coupé e Gran Sedan em outubro de 1972, ambos modelos 1973.


A crise do petróleo em 73 forçou o departamento de engenharia da marca a promover ajustes mecânicos para tentar reduzir o elevado consumo. As novas lanternas traseiras da linha 1973 e 1974 são exclusivas do Dodges nacionais (totalmente vermelhas, com a luz de ré na parte inferior, num pequeno retângulo branco).

Continua...

LINHA DODGE DART/CHARGER NO BRASIL - Parte 2 de 2

LINHA DODGE DART/CHARGER NO BRASIL - Parte 2 de 2

Para 1975 os Dodge V8 passaram a ser equipados com o "Fuel Pacer' (sistema instalado junto ao carburador que acendia a lâmpada direcional do para-lama esquerdo quando a mistura ficava rica demais, induzindo o motorista a aliviar a pressão no pedal do acelerador ou passar para marcha mais correta, para economizar combustível). Era possível obter-se até 15% de economia, mas era como andar num Fusca... Nessa época, a Chrysler efetuou testes em motores de 6 e 4 cilindros em “V”, todos derivados do 318 V-8, bem como o motor de 6 cilindros em linha do Valiant argentino, mas nenhum deles foi adotado. As lanternas traseiras foram redesenhadas (voltaram a ser inteiramente na cor vermelha) e passaram a ter o retângulo transparente da luz de ré posicionado na vertical, voltado para o centro da tampa do porta-malas.

Acima, o Dodge Gran Sedan 1975

Em 1976 o estofamento dos carros foi redesenhado, mas os modelos SE, Gran Coupé e Charger saíram de linha. O esportivo R/T ganhou bancos dianteiros com encosto alto e reclináveis, mas sem regulagem milimétrica. Este modelo também passou ter volante igual ao utilizado no restante da linha Dodge, abandonando o modelo de 3 raios, mais esportivo. O Gran Coupé o Gran Sedan ganharam a grade do R/T, faixas brancas nos pneus e calotas integrais cromadas, ficando ainda mais elegantes, além de ignição eletrônica. 

A partir de 1977 o R/T voltou a usar gasolina comum, perdendo potência e igualando-se aos demais modelos.

Em 1978 foram montados os últimos "Gran Sedan". 

As características entradas de ar que ornamentavam o capô do R/T deixaram de ser oferecidas e o teto de vinil passou a revestir apenas a metade traseira da capota (esse recurso estilístico estava presente no Ford Maverick e no Chevrolet Opala). Uma nova calibragem do carburador deixou o carro um pouco mais econômico. As faixas pretas decorativas das laterais foram modificadas e ficaram bem mais largas, e posicionadas na parte inferior da carroceria.

R/T 1978
 

Em 1979, já em sérias dificuldades, a Chrysler empreendeu importante reestilização da linha V8 com baixo custo, mediante o uso de apliques de fibra de vidro que agregaram faróis duplos e redondos conjugados à grade. A capacidade do tanque dos carros aumentou de 62 para 107 litros o que obrigou ao remanejamento do estepe para uma posição acima do eixo traseiro, como na linha Ford Gálaxie.

O Dart permaneceu como versão de entrada, oferecido com 2 ou 4 portas e foi o único a ganhar a mesma frente do Dart americano de 1974. Um detalhe é que apenas 335 unidades foram produzidas nesse ano. Os bancos eram forrados em veludo de nylon antiestático, com aparência agradável. Os para-choques dianteiro e traseiro continuaram sendo de metal e cromados. A traseira ganhou sutis rabos de peixe e lanternas duplas e retangulares dispostas na horizontal.

O novo cupê Magnum (com vidro lateral traseiro envolto por moldura em fibra na cor do carro) tinha a opção de câmbio manual de 4 marchas ou automático de 3 velocidades, no assoalho. 

O sedan Le Baron tinha câmbio manual de 3 marchas ou automático de 3 velocidades, só na coluna. Ele se destacava pelas “almofadas” nos bancos, em veludo. Aqui cabe um depoimento: em 1980 eu era aluno da Faculdade Cândido Mendes, no Centro do Rio, e o Sérgio (colega de classe que residia na Avenida Atlântica) às vezes me dava carona até em casa (eu morava na Rua Barata Ribeiro). Era um luxo só andar naquele carrão de rodar macio, absolutamente silencioso, e desfrutando do conforto das inusitadas almofadas do Le Baron marrom metálico novinho em folha...


Os dois novos modelos, acima, eram os "top de linha", com teto de vinil inteiriço no sedan, e no cupê uma "cinta "na cor do carro, que lhe dava um estilo targa.

O esportivo R/T complementava a linha, e tinha pintura em dois tons (capô e metade dianteira do teto em tom mais escuro), sendo oferecido apenas nas combinações azul/azul escuro, marrom/bege e prata/preto. Outro destaque do modelo eram as interessantes "persianas" que recobriam os vidros laterais traseiros. 


O R/T era oficialmente a versão esportiva, mas não a mais luxuosa e menos ainda a mais cara, além de ter perdido o conta-giros do painel e a famosa “rabeta” da coluna traseira.

Apesar de vir com exclusivas rodas de liga leve de série, um retrocesso foi a oferta de pneus diagonais, como opcional. A versão perdeu o conta-giros e para o seu lugar veio um relógio.

A linha 1979 foi tão bem sucedida que vendeu o dobro da linha 1978.

Para 1980 o Magnum ganhou a opção de teto solar com acionamento elétrico, comandado por um botão no painel. Era um luxo exclusivo no segmento! Pena que chegou tarde demais...

O R/T 1980 perdeu as "persianas" laterais e ficou ainda mais simples no acabamento e na aparência, perdendo a razão de ser na linha. Apenas 19 unidades seriam produzidas e vendidas, encerrando a linha esportiva naquele ano (em 1980 os únicos cupês ainda oferecidos foam o Dart e o Magnum).

A venda da Chrysler do Brasil para a Volkswagen da Alemanha não se deu por interesse na velha linha Dart e Polara, e sim para absorver a linha de caminhões. Apesar de prometer que continuaria a produzir os carros de passeio da Chrysler, em 1981 a Volkswagen encerraria a sua produção.

De 1970 a 1981 foram produzidos 93.008 carros e as derradeiras vendas se deram em 1984.

Acima, modelos de rodas e calotas utilizados de 1969 a 1981. 

Abaixo, detalhes das dianteiras dos modelos de 1969 a 1981.

Abaixo, modelos de painel e bancos utilizados de 1969 a 1981.

Para finalizar, detalhes das diferentes lanternas dos modelos 1969 a 1981.


NOTAS:

No Salão do Automóvel de 1976 foi exibido o protótipo de um Dart movido à álcool, que acabou não sendo produzido em série.

O Dart Cupê 1981 é o modelo mais raro de toda a linha Dodge, pois foram produzidas apenas 10 unidades.

Acesse: https://quatrorodas.abril.com.br/noticias/o-incrivel-museu-do-dodge-no-brasil/