segunda-feira, 28 de setembro de 2015

HISTÓRIA DA LINHA FORD GALAXIE-LTD-LANDAU (1967 A 1983)



O MAIOR CARRO PRODUZIDO EM SÉRIE NO BRASIL

No V Salão do Automóvel, de 1966, a Willys Overland apresentou o EXECUTIVO – o maior automóvel do Brasil, que também foi a primeira e única limousine brasileira construída por um grande fabricante. O modelo foi concebido a partir do sedan Itamaraty, com 75 cm a mais na cabine, gerando um enorme entreeixos com 3,45 m. O comprimento total da limousine era de impressionantes 5,52m. Mas o Executivo foi um carro com produção limitadíssima (apenas 22 unidades) e não um carro “de série”... e durou apenas 1 ano no mercado. 
Abaixo, a limousine Executivo, da Wilys Overland do Brasil
Por conta disso podemos dizer que o título de “MAIOR CARRO DO BRASIL” pertence ao Ford Galaxie 500, também apresentado no Salão de 1966, com medidas generosas no comprimento (5,33 m), na largura (1,99 m) e no entreeixos (3,02 m).

O Galaxie foi concebido nos Estados Unidos em 1958, e produzido em várias gerações até 1974. A versão que veio para cá era baseada no modelo 1966 e aqui foi lançada como linha 1967, com linhas bem atuais. O nome é uma alusão a era da corrida espacial (o nome "Galaxie" viria da palavra inglesa Galaxy, que em português seria Galáxia) e o número 500 foi buscado na vitória das 500 milhas de Daytona (1958).​

O Galaxie 500 foi o primeiro carro de passeio da marca, no Brasil, e estreou "humilhando" os modelos arcaicos ainda produzidos e que poderiam lhe fazer alguma concorrência, como os vetustos Simca Chambord e seu derivado Esplanada, o Willys Itamaraty e o quase virtual FNM 2150. Seus rivais “de verdade” não eram produzidos aqui, sendo o maior deles o importado Chevrolet Impala. Na verdade, a Ford quis se antecipar aos planos da Chrysler, que não escondia a ambição de vir para o Brasil – o que de fato ocorreu em 1967, quando adquiriu o controle acionário da Simca do Brasil e, dois anos mais tarde, lançou o Dodge Dart. A Ford não lançou um modelo menor porque já havia outras opções no mercado e a matriz não estava disposta a gastar além do que o projeto do Galaxie exigiu, naquela época.

O Galaxie 500 foi exibido ao público brasileiro no Salão do Automóvel de 1966 e se destacou graças aos maciços investimentos em propaganda (importante lembrar que no mesmo salão foi exibida a limousine Willys Executivo, os Simca Esplanada/Regente, o esportivo GT Malzoni, o FNM Onça, a reestilizada linha DKW etc.). Sob o enorme capô dianteiro do nosso primeiro Galaxie 500 estava o pesado motor Power King 272, V8, de 4.458 cc (usado nos caminhões da marca). Ele rendia 164 HP de potência – pouco para o porte do carro, mas era maior que a de todos os carros de passeio nacionais. O consumo médio era de 6,5 Km/l de gasolina e o tanque tinha capacidade para 76 litros. A velocidade máxima chegava aos 165 Km/h e os freios eram a tambor nas quatro rodas – mas suficientes para o carrão, que não tinha nenhuma vocação esportiva. O alto consumo de combustível não era empecilho para o sucesso do carro, mesmo porque naquela época a gasolina era farta e barata e os mais abastados não costumam ligar para o consumo de seus carros. 

Em 16 de fevereiro de 1967 o primeiro Galaxie produzido em série saiu da linha de montagem e em meados de abril as primeiras unidades chegaram aos revendedores da marca. Nesse mesmo ano o modelo conquistou o cobiçado título de “CARRO DO ANO” – promovido pela revista Mecânica Popular. Além de impressionar pelo tamanho avantajado e pela carroceria elegante e repleta de cromados, o Galaxie oferecia mimos até então não oferecidos no mercado, como direção hidráulica, espaço de sobra para 6 pessoas (segundo a Ford, até 8 poderiam ser transportadas), rodar macio e silêncio sepulcral a bordo. Havia outros diferenciais, como quebra-ventos acionados por manivelas, luzes no porta-luvas e para o assoalho, alto-falantes no painel, entre outros. Mas o Galaxie pecava por não oferecer ar condicionado de série, por exemplo. Os vidros com acionamento elétrico, disponíveis na Europa e Estados Unidos desde a década de 50, nunca foram oferecidos à linha nacional, nem como opcional (assim como bancos dianteiros individuais). As primeiras unidades não ofereciam forração no porta-malas, o que era surpreendente. Havia 8 diferentes cores, todas sólidas e fazendo referências ao espaço sideral: branco glacial, azul agena (escuro), azul infinito (claro), bege terra, cinza cósmico, preto sideral, verde netuno e vermelho marte. Também era oferecida a clássica combinação “saia-e-blusa”, com o teto sempre pintado de branco. As forrações das portas, dos puxadores, do painel e da tapeçaria poderiam ser nas cores azul, vermelho, preto ou bege. Os bancos podiam ser revestidos em tecido e vinil, ou só vinil. Nada menos que 9.237 unidades foram vendias em 1967 – um feito e tanto em se tratando de um país pobre e com pequeno mercado à época.

Diante do enorme sucesso do carro, a partir de 1968 começaram a ser projetadas outras versões, começando pela fast back, baseada na versão norteamericana de 1967. Teria a parte traseira mais estreita, bancos dianteiros individuais, apenas 2 portas, alavanca no assoalho com câmbio de 4 velocidades e novo motor de 4.800cc. O Galaxie recebeu retrovisores externos, opcionais, pois não era um item obrigatório (!).
Abaixo, a bela versão 2 portas que nunca tivemos...
Uma perua Galaxie também foi pensada e tinha reais chances no mercado, pois em 1967 não tínhamos mais peruas derivadas de carros de passeio para atender às necessidades das grandes famílias (em 1966 a Simca Jangada havia saído de linha e, em 1967, foi a vez da perua DKW Vemaguet). A Chevrolet Veraneio, a VW Kombi e a Willys Rural eram utilitários, porém mais voltadas para o comércio do que para o lazer.Acabaram sendo construídas algumas unidades para uso interno, e uma interessante versão ambulância, que não passou de um protótipo, abaixo:

(continua...)

HISTÓRIA DA LINHA FORD GALAXIE-LTD-LANDAU (1967 A 1983)

Parte 2

No VI Salão do Automóvel de 1968 foi exibida uma versão mais luxuosa do Galaxie 500: a LTD modelo 1969.  
Abaixo, a nova versão top LTD, modelo 1969
(grade diferenciada e mais luxo)
Equipado com o novo motor V8 292, de 4.800cc, o LTD tinha 190 HP de potência e câmbio automático de 3 marchas. O ar condicionado, entretanto, continuava sendo oferecido como opcional. Ele ganhou uma nova grade de motor, quadriculada, além de teto de vinil, bancos forrados em jérsei e melhor acabamento. O Galaxie 500 foi atualizado com novas opções de cores, nova grade do motor e alguns detalhes de acabamento, mas perdeu a charmosa “mira” do capô. Ele podia receber, opcionalmente, o novo motor 292 V8 do LTD.
Em 1969 foram vendidas 5.544 unidades, ainda uma boa marca, mas que acusava a chegada de concorrentes modernos e baratos ao mercado, como o Chevrolet Opala 4 e 6 cilindros (que vendeu 25.517 unidades no lançamento, em 1968) e, principalmente, o Dodge Dart V8 (outubro de 1969).
Abaixo o Galaxie 1969 com nova grade e logotipos
(sem a "mira" do capô, novos frisos e logotipos).
Em 1970 o motor 292 V8 estava disponível para toda a linha, assim como cintos de segurança, mas a luz que iluminava o assoalho (ficava sob o painel) deixou de ser oferecida. Mas a Ford acabou repetindo o erro que a Simca havia cometido alguns anos antes, quando lançou duas versões despojadas do Chambord (a Alvorada e a Profissional, esta voltada para os taxistas). É que, em janeiro de 1970, na tentativa de combater o sucesso dos mais acessíveis Opala e Dodge Dart, a Ford passou a oferecer no mercado uma versão “pé-de-camelo” do Galaxie 500, que recebeu o nome Galaxie (sem o “sobrenome” 500). Ele aproveitava elementos das linhas anteriores do Galaxie 500, como as antigas grades do motor, e perdeu muitos cromados. As calotas – as mesmas dos primeiros Galaxie 500, de 1967 – eram pequenas e muito simples, e as rodas eram pintadas na cor do carro. As forrações internas eram simples e mais semelhantes à do Corcel, de segmento inferior. O painel perdia o relógio elétrico e o rádio, e a direção deixava de ser hidráulica para ser mecânica, o que “aliviava” o motor 292 V8 e o deixava mais potente, permitindo ao Galaxie chegar à velocidade máxima de 163 Km/h, contra os 150 Km/h do Galaxie 500.
Galaxie 1970 
("Pé-de-camelo" ou "Teimosão")

No VII Salão do Automóvel, de 1970 foi lançada a nova versão topo de linha LTD-Landau modelo 1971, que era facilmente reconhecida pelo diminuto vidro traseiro, que “dava mais privacidade a autoridades e grandes empresários e executivos sentados no banco traseiro”. O teto de vinil recebeu adornos na coluna traseira em forma de “S”, inspirados nas carruagens que transportavam os nobres europeus. A famosa “mira” voltou ao capô, com novo desenhado inspirado nos Lincoln, enquanto a grade foi redesenhada e foram incorporadas novas e belíssimas calotas (dos LTD e Lincoln americanos). As charmosas lanternas traseiras retangulares com luz-de-ré no centro deram vez às belíssimas lanternas “catedrais” (dividida em 3 gomos verticais), o que explica as luzes de ré terem migrado para o para-choque, que recebeu recortes. As novidades mecânicas limitavam-se aos freios hidrovácuo (só na linha 1972 ganharia freios a disco servoassistidos, com regulagem automática). O Galaxie 500 ganhou nova grade, as mesmas lanternas "catedrais" e novos frisos e logotipos, novas cores etc. 
Em 1972 apenas cem Galaxie (o modelo básico) foram produzidos e nesse mesmo ano a versão espartana deixou de ser oferecida; afinal, era um produto que não convencia o consumidor e a Ford já apresentava ao mercado o Maverick, que iria concorrer com o Chevrolet Opala e o Dodge Dart, mais baratos.
 Abaixo: LTD-Landau 1971 (esquerda) e 1972 (direita).
(grade mais elegante, novo painel traseiro, novos frisos laterais...)
 Abaixo, 2 exemplares do Galaxie 1971 
(grade redesenhada, belas lanternas traseiras "catedrais")
Em junho foi lançada a linha 1973 do Galaxie e LTD-Landau, e ela tentou apagar a apatia da linha anterior. Embora mantivesse os faróis duplos dispostos na vertical, estreou grades bem diferenciadas para o Galaxie 500 e o LTD-Landau, com ressalto no centro, onde ficava o radiador (novamente a inspiração veio dos Lincoln). Com isso, os capôs foram redesenhados. Infelizmente as belas lanternas “catedrais” cederam a vez para outras menores e de formato trapezoidal, pouco estilosas (ocupavam a metade do espaço das anteriores e eram semelhantes às do Galaxie 1970 norteamericano). Algumas alterações de estilo ocorreram no interior das duas versões. A esportiva versão 2 portas voltou a ser cogitada para lançamento, mas acabou sendo abandonada de vez diante da crise do petróleo de 1973. As vendas da linha reagiram com incremento de 20% em relação ao ano anterior. 
O ligeiro aumento das vendas e a crise provocada pela crise do petróleo abortou o projeto do novo motor de 7 litros e a reestilização da linha. Por isso, os modelos 1974 era praticamente os mesmos de 1973, e ainda assim venderam mais: 6.110 unidades. 

A linha 1975 também trouxe poucas novidades, limitadas às costumeiras perfumarias e detalhes de estilo. O LTD-Landau perdeu as luxuosas supercalotas e passou a usar as mesmas do Galaxie 500. Por conta do pouco investimento, houve um tombo de 20% nas vendas e apenas 4.654 carros foram vendidos. Os rivais não perdiam tempo e a linha Opala foi restilizada, assim como os Dodges foram aprimorados e ganhando versões mais luxuosas. O Alfa Romeo 2300 (lançado em 1974) era um novo concorrente de peso. 
 Abaixo, um Galaxie 1973 (dourado) e outro 1975 (branco)
(nova grade com ressalto central, lanternas pequenas trapezoidais etc)
 Abaixo, dois LTD-Landau 1974
(grade com painéis pintados entre os faróis, grade com frisos verticais, 
novo painel traseiro, novas calotas etc.)

As novidades “pra valer” vieram com a linha 1976, exibidas no Salão do Automóvel de novembro de 1975.   
Agora eram oferecidos 3 modelos: o Galaxie 500 (versão de entrada) o LTD (versão intermediária) e a nova versão topo de linha Landau (só esta manteve o pequeno vidro traseiro). A linha 1976 ganhou faróis duplos dispostos na horizontal com piscas nas extremidades – o que exigiu novas grades do motor, capô e para-lamas dianteiros. As belas lanternas traseiras eram 3 pequenos retângulos de cada lado, dispostos na horizontal e rentes à linha do para-choque. O Landau recebeu novas calotas de aço escovado, do Lincoln, além de interior mais luxuoso e exclusiva forração Jacquard nas portas e nos bancos. A cabine da linha 1976 tinha o mesmo formato básico de 1967, mas os 3 modelos pareciam ser totalmente novos, e ficaram ainda maiores (agora mediam 5,41 m). A Simca/Chrysler havia usado o mesmo artifício quando projetou e lançou a dupla Esplanada/Regente, que nada mais eram do que o velho Chambord com novas frentes e traseiras. O motor 292 V8 de toda a linha finalmente cedeu a vez ao moderno 302 V8, utilizado pelo Maverick. A potência subiu para 190 HP e o carrão agora ia de 0 a 100 Km/h em apenas 10,7s, com velocidade máxima de 160 Km/h (câmbio mecânico) e 153 Km/h (automático). Em 1976 foram vendidos nada menos que 7.063 carros.  Mas em 1977 as vendas despencaram para apenas 2.965 unidades, por conta das poucas novidades da linha e diante do avanço dos concorrentes (Opala Comodoro, Dodge Gran Coupé e Sedan, Alfa Romeo 2300B/TI e até mesmo do Maverick Sedan LDO). 
 Abaixo, o renovado Galaxie 500 1976 (preto) e 1977 (amarelo)
 Abaixo, o LTD 1976
(faróis com molduras na cor do carro, grade vertical etc.)
 Abaixo, o top de Linha Landau 1976
(cor prata continental, bancos forrados em jacquard etc)
 
(continua...)